quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Resenha - “Drácula Apaixonado” (Karen Essex) - test 1

 

 "— É mais do que razoável amar alguém até que o verdadeiro amor apareça — insisti. — É quanto a isso que os romances nos previnem. É isso que a história vem confirmar. Guinevere amava Arthur até conhecer Lancelot. Você não concorda que existe a possibilidade de amar alguém, mas encontrar outra pessoa cuja alma fala com você?"

 Com um título de romance clichê e uma capa não muito atrativa, as expectativas que eu tinha para "Drácula Apaixonado" eram a de uma história de amor sem muita profundidade. E surpreendentemente a autora bateu com o livro na minha cara várias vezes ao mostrar descrições de cenários que me colocaram na história como se tomasse o papel da própria protagonista, reviravoltas que eu não esperava e que sentia como novos tapas desferidos contra a minha face já esbofetada o suficiente por ter subestimado essa obra.

 "Afinal, se damos graças a Deus por tudo de bom que acontece conosco, então por que não culpá-Lo quando nossas esperanças e nossos sonhos tão acalentados vão por água abaixo?"

 Mas esses são apenas alguns pontos a salientar sobre a grandeza desse livro. Karen Essex trás ao leitor uma nova perspectiva do clássico do terror de Bram Stoker. Ela nos aproxima principalmente de Mina e suas visões dos que estão à sua volta. Tal feito deve-se à narrativa pessoal que nos é apresentada; nossa narradora nos entrega sem medos cada detalhe de seu espírito e trajetória, nos dando espaço para julgá-la, sentir pena, compaixão e outras inúmeras emoções, além de compartilhar dos mesmos pensamentos que ela em diversas situações. Como se oferecesse sua alma nua para quem quisesse conhecer cada cantinho dela. Assim, vemos com clareza o desenvolvimento de nossa querida professorinha com o decorrer dos capítulos.

 "Verdade seja dita: devemos temer menos os monstros e tomar mais cuidado com os da nossa espécie."

 O que eu menos esperava com esse livro era o clima de suspense que ele me proporcionou. Fiquei maravilhada ao ver como os ocorridos de Bram Stoker tomavam outra cara e cheguei a acreditar que tudo que foi apresentado no clássico foram cenas maquiadas dessa nova obra. Os que eu julgava heróis se transformaram bem diante dos meus olhos; uma metamorfose que foi deliciosa de presenciar, correndo devagar e levantando suspeitas de seu resultado final bem aos poucos. A trama é bem construída, muito embora o real envolvimento com o personagem que carrega o título só aconteça nas últimas cem páginas e em certos aspectos tenha deixado uma sensação de que não sabia se ainda viriam a focar no romance ou seguiriam para sempre no mistério. Dado isso, não creio que o nome do livro case perfeitamente com o mesmo, quando ele claramente muito mais tem a ver com sua contadora.

 "Qual a vantagem do dom da imortalidade, se ele nos põe na posição de ficar observando morrer aqueles a quem amamos?"

 Talvez o que mais tenha me chamado atenção, além da já citada impecável descrição dos lugares onde é ambientada a história, seja a presença de mitologias locais em várias cidades que Mina visitava. Foi uma inserção interessante por parte da autora, já que mesmo não influenciando diretamente na história (com exceção da celta, que é extremamente vinculada ao casal principal) nos dava um gosto de misticismo adicional.

 "O homem recebeu o dom da bondade e da perfeição, mas nossos comportamentos raramente condiziam com essas qualidades. Seria o nosso destino trairmos uns aos outros?”

 Não foi difícil crer em quão reais são os personagens que preenchem a história. Eles possuem defeitos tão humanos que o leitor pode chegar a sentir raiva ao identificar-se ou recordar-se de alguém semelhante.

 "— Uma das maiores vantagens de ser jornalista e mulher é que ninguém acha que você tem cérebro. As pessoas vão lhe revelar as coisas mais incríveis."

 É importante ressaltar também os aspectos feministas trazidos à tona. A jornalista Kate Reed, desafiante dos bons costumes e de incrível liberdade de espírito, era por esse motivo uma das minhas favoritas. Gostaria de ter visto mais de sua aparição e penso que daria uma protagonista muito mais interessante que a própria Mina Murray, porém compreendo que não seja esse o foco da história e que sua presença não era tão necessária a partir de certo ponto.

 Outro fator importante é como ela representou o hospício do Dr. Seward, deixando mais próximo com a realidade do final do século 19: onde mulheres eram enfiadas nesse tipo de lugar por terem comportamentos aceitados atualmente como um desejo sexual normal; o que contraria a ideia de pacientes devorando insetos que Stoker nos mostra.

 "Nossos mistérios significavam os nossos poderes. Essa era uma certeza que jamais se alterara com o passar dos tempos."

 Apesar dessa sequência de elogios, em minha opinião a escritora pecou ao sugerir com o título e com a premissa uma história muito mais cheia de romance do que de mistérios. O que pra mim foi uma ótima surpresa, para leitores não interessados nesse tipo de trama provavelmente foi cansativo esperar até o dado momento em que o romance se fortalece de verdade e deixasse de lado o desenvolvimento paralelo a esse, relacionado com eventos mais vinculados com a obra de Stoker.

 "Não existe explicação para o amor; nenhuma palavra que seja dita se compara com sua silenciosa alegria."

 Por fim, gostaria de comentar um pouco sobre Mina e o conde. Esse pequeno trecho terá spoilers, então aconselho que não o leia se pretende terminar a obra algum dia.

 Em pessoal, sou apaixonada pelas histórias de predestinados que vencem os séculos para ficar juntos. Eu adorei o momento em que ela finalmente se entregou a ele, muito embora temesse que o conflito sobre vingar a morte de Lucy fosse ser esquecido em meio a tanto amor - e esse seria sem sombra de dúvidas um erro imperdoável. Contrariando meu temor a autora encerrou o caso e infelizmente levou embora com ele o meu casal quase milenário. Ainda que a decisão de Mina seja extremamente compreensível, não deixou de ser um tanto decepcionante para os fãs que apoiavam seu parceiro sobrenatural. O final deixa veias para que nossa imaginação pense que é aberto, que eles voltarão a se encontrar numa próxima vida, talvez. Mas para quem leu 340 páginas esperando que eles ficassem juntos, não é o bastante.

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